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  • Thiago Bezerril

O QUE É DEPRESSÃO? Um pouco da história, causas e características




A depressão é um problema exclusivo dos tempos modernos?



Apesar de, nos últimos tempos, cada vez mais ouvirmos falar sobre depressão e dos registros de aumento de casos em todas as regiões do planeta, esse problema de saúde é algo tão antigo entre os humanos como a própria história de nossa espécie. Dos mais humildes aos mais notáveis e poderosos, diversas personalidades, ao longo da história, foram acometidas por essa enfermidade.


No antigo testamento bíblico (livro de Jó, por exemplo), podemos verificar vários casos dessa patologia. Na Grécia antiga, era percebida como uma punição infligida pelos deuses aos seres humanos, em consequência dos seus atos incorretos. Os relatos de Hipócrates, uma figura importante dos primórdios da Medicina, trazem muitas menções sobre esse tema.


Nos primeiros séculos da era cristã, a Igreja Romana também se ocupou desse tema, aproximando o conceito de depressão ao de tristeza e atribuindo significado moral: considerava ser o resultado da falta de força para enfrentar as vicissitudes do processo existencial. Dessa forma, “se entregar” à depressão era considerado um pecado, e ocorriam castigos aos sacerdotes católicos que se apresentassem nesse estado.


A despeito do envolvimento da igreja na explicação do fenômeno depressivo, os homens da ciência já vinham desenvolvendo, séculos antes, modelos teóricos para explicar o fenômeno depressivo. A teoria mais aceita - que esteve vigente por muitos séculos - foi a dos quatro humores. Esse modelo foi proposto por Galeno, que afirmava ser a depressão resultado do excesso de bile negra no organismo, gerando desequilíbrio em relação aos outros 3 humores circulantes em nosso corpo: bile amarela, sangue e fleuma. Essa teoria também era utilizada para explicar a dinâmica de outras doenças que atingiam a espécie humana. Apesar de parecer arcaica e imprecisa, guarda relação com modelos atuais de intervenção terapêutica integrativa, auxiliares e úteis em muitos casos que se baseiam na interação com o corpo energético.


Já nos últimos séculos, a teoria da bile negra foi perdendo hegemonia para dar lugar a explicações que ligavam a depressão a desequilíbrios na mecânica do cérebro. Esse conhecimento sobre o sistema nervoso central foi avançando e, nas últimas décadas, tem embasado modelos modernos e mais precisos que explicam o fenômeno depressivo. Paralelo ao avanço da compreensão do funcionamento do cérebro, houve ampliação marcante no conhecimento dos aspectos psicológicos da criatura humana, esclarecendo como experiências da vida contribuem para o surgimento e evolução da depressão. Dessa forma, chegamos ao início do século XXI com um entendimento da depressão como um adoecimento sistêmico e um modelo ampliado de compreensão que envolve elementos biológicos/genéticos e psicológicos.



O cérebro é o órgão responsável pela depressão?



Focando apenas na dimensão biológica – há outras dimensões que nos constituem, como a psicológica, social e espiritual – o cérebro é a sede dos desequilíbrios orgânicos que explicam o fenômeno depressivo. No entanto, há dois aspectos fora do cérebro a considerar.


O estado depressivo costuma gerar impacto em diversos órgãos e sistemas, muito além do sistema nervoso. Por exemplo, em indivíduos deprimidos, ocorrem alterações no sistema imunológico, em sistemas hormonais, gastrointestinais, entre outros. Dessa forma, pode-se dizer que a depressão é uma doença sistêmica.


Uma outra questão envolve os estados depressivos causados por outras doenças e por uso de drogas. Na primeira situação, uma pessoa que nunca foi acometida por depressão pode desenvolver sintomas depressivos por hipotireoidismo ou após uma arritmia com parada cardiorrespiratória, por exemplo. Na segunda situação, o uso frequente de diversas drogas ou o período de abstinência de drogas excitatórias (como a cocaína) pode resultar em depressão. Em todos esses casos, estamos diante de depressões secundárias. São situações em que o fator causal está bem definido e, removendo-o (quando possível), a depressão tende a se resolver. São causas primordialmente fora do cérebro, mas que interagem com esse órgão gerando os sintomas depressivos.



Se estou triste, posso estar com depressão?


Tristeza não é sinônimo de depressão. Uma pessoa pode estar com alto grau de tristeza e não ter depressão. Sentir-se triste, contudo, costuma ser frequente nesse transtorno, e esse sintoma faz parte do núcleo de muitos estados depressivos. Além disso, como será visto adiante, o diagnóstico depende do impacto do sintoma no funcionamento da pessoa. Tristeza de duração mais curta ou num grau mais leve é um sentimento que faz parte de uma vida normal de todo indivíduo.



Como é possível definir se estou com depressão?


O diagnóstico de depressão, assim como qualquer outro transtorno mental, é realizado a partir de um conjunto de critérios. Vamos dividi-los em grupos para uma melhor compreensão.


01. Critério tempo

O conjunto de sintomas precisam estar presentes por 2 semanas, na maioria dos dias, na maior parte do tempo. Por que esse aspecto é importante? Imagine que uma pessoa tomou conhecimento de grave infidelidade e terminou seu relacionamento. Ficou sendo afetada por todos os sintomas depressivos por 2 dias, mas, no terceiro dia, praticamente não sentia mais nada e, com menos de 1 semana, levava vida normal – apenas sentindo muita raiva da traição. Essa pessoa teve depressão e se curou rapidamente? Não, isso não foi depressão. Foi uma reação aguda a estresse, algo bem comum na vida de todos nós. Exigir um tempo mínimo de sintomas auxilia a diferenciar depressão desses estados.


02. Critério Impacto no funcionamento

Para que um conjunto de sintomas sejam enquadrados num diagnóstico de depressão, faz-se necessário que causem sofrimento significativo ou prejuízo em áreas importantes da vida (relacionamentos, trabalho).


03. Critério sintomas

Nesse grupo de critérios, estão as características da depressão, os sintomas que estão sendo expressos. Para melhor compreensão, podemos dividi-los em essenciais, necessários e relacionados.


SINTOMAS ESSENCIAIS

Podemos chamá-los dessa forma porque, para se estar com depressão, obrigatoriamente é preciso estar presente, pelo menos, um destes dois sintomas:


Redução acentuada de interesse ou prazer nas atividades.

Está relacionado à percepção de que tudo – ou boa parte das coisas – está sem graça, desinteressante, sem cor, sem vida. Num estado mental normal, todos nós sentimos algum tipo de prazer e interesse em diversas atividades no nosso cotidiano. Esse aspecto é um motor importante do “estar no mundo”.



Humor deprimido

Pode ser considerado um sinônimo de tristeza profunda, desânimo, vazio, desolação. Esse estado se diferencia de momentos pontuais de tristeza, que todos nós podemos ter, principalmente em resposta a situações mais impactantes da vida.



SINTOMAS NECESSÁRIOS

Aqui temos uma lista de 07 sintomas e, para se estar com depressão, não é necessário que todos estejam presentes.


Alterações de sono

Podem ser diversas, desde a falta de sono (dificuldade para adormecer, acordar no final da madrugada e não dormir mais, sono superficial de baixa qualidade) até o excesso de sono, que pode se traduzir em dormir muito mais horas que o normal ou ficar sonolento durante o dia. Alguns povos antigos se referiam aos casos de pessoas deprimidas que dormiam excessivamente como "sono da morte".



Alterações de fome ou de peso

De forma análoga ao sono, podem ocorrer distúrbios nas duas direções: redução de fome com redução de peso – em alguns casos pode ser crítico ao nível de desnutrição e risco de morte – ou aumento de fome com aumento de peso. Nessa segunda situação, é comum uma busca mais específica por doces e outros carboidratos nada saudáveis.



Alteração na psicomotricidade

Esse sintoma se refere às alterações envolvendo os movimentos e a fala. Análogo aos dois sintomas anteriores, na depressão, pode ocorrer agitação psicomotora – inquietação nos gestos e na fala, andar de um lado para outro, dificuldade de ficar numa mesma posição – ou retardo psicomotor – lentificação nos movimentos, fala mais devagar, com pausas maiores e volume reduzido.



Redução de energia

Pode ser percebida de várias maneiras, mas, de forma geral, é sentida como fadiga, cansaço físico, indisposição. Variações importantes podem ocorrer ao longo do dia: há deprimidos que já acordam com bastante baixa energia e ficam assim o dia todo; outros podem experimentar alguma melhora no início ou final do dia.



Ideias de culpa, inutilidade ou baixo valor

No que se refere aos pensamentos, essa é uma marca da depressão. O indivíduo deprimido tende a ficar muito pessimista e perceber o mundo e a si mesmo de forma exageradamente negativa. Há uma tendência de focar em experiências ruins do passado (ou reinterpretadas agora como ruins), valorizar possíveis falhas ou vulnerabilidades pessoais – inclui se achar mais feio, incompetente ou inadequado. O aspecto patológico desse sintoma fica claro para muitos acometidos, quando a depressão passa e o estado de normalidade psíquica é reestabelecido. Muitos se surpreendem ao perceber como estavam julgando a realidade de forma tão distorcida e imprecisa, quando estavam deprimidos. Esse é um dos motivos para se ter bastante cuidado ao tomar grandes decisões na vida estando sob depressão ou sob impacto de qualquer forte emoção, pois há um risco maior de equívocos e arrependimentos posteriores.



Piora de foco, concentração e memória

Esse sintoma pode ser muito ou pouco incômodo, a depender da rotina e demandas da pessoa deprimida. Alguém que esteja com tarefas de alta demanda cognitiva, como estar fazendo um doutorado, poderá sentir mais incômodo que alguém numa rotina de tarefas mais mecânicas que não exigem raciocínio intenso. Um outro aspecto que costuma ficar prejudicado por esse sintoma é a tomada de decisão. É comum haver dificuldade para decidir sobre aspectos diversos do dia a dia quando se está deprimido, como o que comer ou que roupa vestir.



Ideias de suicídio

Há várias formas de expressão desse sintoma, variando do mais sutil, em que a pessoa tem ideias passivas de morte – como desejar estar morto, dormir e não acordar – até uma forma mais severa com planos concretos e tentativas de suicídio.



SINTOMAS RELACIONADOS

Aqui temos sintomas que não são obrigatórios para o diagnóstico de depressão, mas que estão presentes com frequência relevante, contribuindo com maior sofrimento e prejuízo para os acometidos por esse transtorno.


Ansiedade

Boa parte das depressões podem ser classificadas como depressões ansiosas, por estarem presentes características como tensão, preocupações excessivas, insegurança, medo. A ansiedade pode se tornar foco de resistência no tratamento, ocorrendo casos em que os sintomas depressivos que definiram o diagnóstico somem e os de ansiedade ainda permanecem gerando problemas ao indivíduo.



Dor

É comum pessoas com depressão queixarem-se de diversos tipos de dor, de característica crônica ou recorrente: muscular, abdominal, de cabeça. O mecanismo para esse processo costuma estar relacionado com alterações no sistema de percepção da dor no cérebro, ou seja, não há uma inflamação ou lesão aguda nos músculos, ossos ou tendões. Além disso a relação entre essas duas patologias costuma ocorrer nos dois sentidos: quem tem depressão tem maior chance de ter dor crônica, e quem tem dor crônica tem maior chance de desenvolver depressão.



Estar com depressão significa ter depressão?

Não, e aqui temos um aspecto que pode dar imprecisão ao termo “depressão”. Todos os critérios descritos para o diagnóstico (sintomas, impacto no funcionamento e tempo) caracterizam o estado, fase ou episódio depressivo. Se um individuo preenche esses critérios pode-se dizer que está com depressão. Então o que significa ter depressão? Nesse sentido se faz referência à patologia “transtorno depressivo” ou “depressão unipolar” que se caracteriza pela ocorrência, ao longo da vida, de um ou mais episódios depressivos. Para o profissional de saúde mental, essa distinção entre estar no episódio e ser portador do transtorno é muito importante porque há outras doenças mentais que podem se apresentar com episódio depressivo, como o transtorno bipolar, transtorno depressivo induzido por substância ou medicamento, transtorno depressivo devido a outra condição médica.

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