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  • Dr. Thiago Bezerril

PENSAR PARA AGIR OU AGIR SEM PENSAR? A IMPULSIVIDADE E O TDAH

Atualizado: 15 de Set de 2020

Para melhor compreensão desse texto, recomendo leitura de publicação anterior deste Blog: Todo mundo pode ter TDAH?


Uma família, certo dia, estava indo de sua casa para outro local e decidiu fazer uma rápida parada, para comprar creme de açaí. O plano era levar o alimento numa embalagem para ser consumido no destino. Um dos membros do grupo, um homem de 25 anos com diagnóstico de TDAH, estava com forte desejo de consumir o açaí no próprio estabelecimento ou no carro, durante o trajeto, que iria durar 40 minutos. Foi feito com ele um reforço na recomendação de que o alimento deveria ser levado para consumo no destino. Comer no estabelecimento implicaria em atrasar a viagem e, no veículo, seria ainda pior, pois, além do risco de sujeira acidental, havia uma criança menor de 2 anos no grupo, que era muito apaixonada por açaí, mas, naquele momento, não deveria desfrutar do delicioso lanche. Se a criança visse alguém comendo o açaí, fatalmente iria ficar muito contrariada, chorar, resultando em estresse para todos os ocupantes do carro. O jovem concordou, aparentemente tranquilo e de forma honesta, em aguardar o pequeno tempo da viagem para comer. Mas, 5 minutos após reembarcar no veículo, estando diante da embalagem de açaí e sentindo seu desejo aumentar, não resistiu e, de forma rápida, abriu o pote e começou a comer. Após sofrer forte repreensão de todos os adultos do grupo, parou de fazê-lo.


O caso descrito é real e ilustra um ato de impulsividade. Esse comportamento se expressa em ações precipitadas que ocorrem sem premeditação. Pode ser reflexo de um desejo de recompensas imediatas ou de incapacidade de postergar a gratificação. No caso descrito, o ato impulsivo não resultou em grande problema, apenas um conflito momentâneo dentro do grupo familiar. Mas, se pensarmos em comportamentos dessa natureza em outras circunstâncias, poderemos ter ideia do grave prejuízo que pode causar, como decisões equivocadas envolvendo grandes temas da vida: iniciar ou terminar relacionamentos; iniciar ou sair de um emprego; efetuar compras desnecessárias de produtos ou serviços, causando endividamento ao comprador; decidir fazer uma ultrapassagem perigosa, gerando grave acidente; expressar-se verbalmente de forma precipitada, magoando pessoas importantes e comprometendo relacionamentos.


Os prejuízos do comportamento impulsivo não são restritos aos adultos. Crianças impulsivas tendem a ser mais rejeitadas entre os amigos, por terem dificuldade em respeitar regras. Na adolescência, pode ocorrer autocontrole prejudicado de forma geral e postura de subestimar os riscos de variadas decisões e situações.

A IMPULSIVIDADE É UM TRANSTORNO MENTAL?

Não como um diagnóstico específico, assim como uma febre não é uma doença, mas um sintoma comum a várias patologias. A impulsividade é uma característica importante de alguns transtornos mentais e pode também ser um traço de personalidade não patológica. Importante salientar que um dos critérios gerais pra definir transtorno mental é a presença de sofrimento e/ou prejuízo significativo em função do sintoma. Portanto, uma pessoa pode ter comportamentos impulsivos que não geram problemas e não são patológicos.


A IMPULSIVIDADE É SINÔNIMO DE HIPERATIVIDADE NO TDAH?

Não. Hiperatividade envolve comportamentos de inquietação mental ou física, necessidade de manter-se sempre ocupado, entre outros. No entanto, é comum sintomas de hiperatividade e impulsividade se expressarem juntos numa mesma pessoa – e esse é um dos motivos, além da simplificação de grafia, para existir apenas o “H” na sigla “TDAH”. A presença predominante de sintomas de hiperatividade e impulsividade define o TDAH, subtipo hiperativo/impulsivo. Existe também o subtipo desatento (veja o post anterior: todo mundo pode ter TDAH?) e o combinado, situação em que há sintomas conjuntos de desatenção, hiperatividade e impulsividade. Em outras palavras, entre as pessoas acometidas pelo transtorno, há o grupo predominantemente desatento/desorganizado, outro grupo hiperativo/impulsivo e ainda um terceiro grupo que será um misto dos 2 anteriores.

IMPULSIVIDADE EM UMA PESSOA COM TDAH PODE MUDAR COM O PASSAR DO TEMPO, SEM TRATAMENTO?

Sim, e analisar essas mudanças é importante para melhor definir o diagnóstico e tratamento. Crianças e adolescentes com TDAH comumente expressam impulsividade de forma mais difusa – isso é uma realidade mais perceptível entre os meninos quando se compara com as meninas. Ocorre algo semelhante com a hiperatividade. Com a chegada da idade adulta e o avanço para a quarta e quinta décadas de vida, em muitos casos, ocorre uma atenuação desses sintomas e expressão mais localizada. No entanto, poderá continuar sendo um problema ao causar prejuízos diversos.

COMO SUSPEITAR DE TDAH EM PESSOA HIPERATIVA OU IMPULSIVA?

Como foi descrito em Post anterior (Todo mundo pode ter TDAH?), os sintomas devem ter iniciado obrigatoriamente antes dos 12 anos de idade. Não existe TDAH que começa na idade adulta, mas não é raro se prestar atenção aos sintomas só nessa fase. Considerando que, na infância, já estavam presentes as características do transtorno, importante interpretar as alterações no contexto de cada idade.


A seguir, estão listados os 9 conjuntos de sintomas que são critérios oficiais para o diagnóstico do TDAH, subtipo hiperativo/impulsivo:


Inquietação quando está sentado(a) ou parado(a), que se expressa principalmente em movimentos diversos nos membros: balançar as pernas, bater os dedos, manusear algum objeto sem finalidade, roer unhas.


Levantar-se do lugar em situações em que é esperado que se permaneça sentado, dificuldade em ficar parado(a) muito tempo num mesmo lugar.


Sentimento de inquietação, agitação, necessidade de estar sempre ocupado(a).


Dificuldade em dedicar-se tranquilamente a atividades de lazer, dificuldade em realizar atividades sossegadamente, tendência a ser barulhento(a) ou falar alto.


Comportamento acelerado(a), como um “motor ligado”, “a mil por hora”. Visto pelos outros como muito inquieto, com muita energia.


Tendência de falar excessivamente. Se comunica de maneira agitada.


Fala impulsivamente, sem pensar/planejar. Numa conversa, responde antes que o outro acabe a frase, completa a frase das pessoas.



Impaciência, dificuldade em esperar sua vez. Dificuldade em manter a calma ou esperar em uma fila, no trânsito ou mesmo numa conversa. Pode iniciar ou deixar subitamente emprego e relacionamentos, por impaciência.


Intromete-se ou interrompe os outros sem pedir licença. Dificuldade em respeitar os limites dos outros.

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