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  • Dr. Thiago Bezerril

TODO MUNDO PODE TER TDAH?


Recentemente, fiz o atendimento de uma pessoa que já está em tratamento para TDAH – transtorno de déficit de atenção e hiperatividade – e ela me questionou: “como eu posso ter TDAH se meu irmão, que acho muito parecido comigo, já fez avaliação e não tem?”. Essa é uma pergunta interessante, porque diz respeito à natureza das características desse problema, podendo gerar percepções equivocadas sobre o diagnóstico.


Uma questão bem importante quando falamos de diagnóstico psiquiátrico é compreender a Ideia de espectro. Na nossa vida cotidiana e nas ciências em geral, é comum usarmos categorizações. Dividimos as coisas em “caixinhas”, de acordo com as características. E, nesse processo, acabamos por adotar simples dicotomias: claro/escuro, bom/mau, frio/calor. Ocorre que, em sua essência, a natureza é espectral e não categórica. Isso quer dizer que os fenômenos costumam se apresentar dentro de uma grande “linha”, podendo estar um pouco mais para um lado ou para o outro da linha. São diferentes tons, como, por exemplo, na escala de cores, podemos ter um azul bem claro numa extremidade do espectro e um azul bem escuro na outra extremidade e, entre eles, diversos tons. Quando analisamos a natureza humana, a aplicação da ideia de espectro se torna ainda mais necessária – e desafiadora.


Vejamos o que ocorre no TDAH. Uma característica clássica desse transtorno é a dificuldade em manter o foco e concentração em atividades que não são muito interessantes. Mas, se avaliarmos toda a população da terra, teremos pessoas mais ou menos concentradas, distribuídas num espectro, da forma como ocorre no exemplo relatado dos tons de azul: aquelas que conseguem se concentrar de forma excelente num extremo dessa linha, outras que têm péssima concentração num outro extremo e várias outras com níveis variados dessa característica, entre essas duas extremidades. Esse mesmo cenário pode ser observado em várias outras características do TDAH.

ENTÃO OS SINTOMAS DO TDAH PODEM SER VARIAÇÕES DENTRO DESSES ESPECTROS?


Isso mesmo. E cada característica de TDAH nas pessoas acometidas é expressão mais localizada num extremo no espectro. Como se fosse um “exagero” de comportamentos e atitudes que podem ser encontradas em muitas pessoas sem o transtorno.

DESSA FORMA, PODEMOS AFIRMAR QUE O TDAH PODE NÃO SER UM TRANSTORNO POR SER APENAS UMA VARIAÇÃO DENTRO DO ESPECTRO?


Não, pois o diagnóstico do TDAH não se baseia apenas nas características (sintomas) que uma pessoa apresente. Precisa haver sofrimento e prejuízo ao funcionamento do indivíduo, para que o diagnóstico seja firmado. Esse é um grande desafio da psiquiatria em todos os tempos: definir a fronteira entre o normal e o patológico. Sofrimento e prejuízo são guias fundamentais nesse processo. Vale a pena ressaltar que, para se fazer o diagnóstico, os sintomas precisam ter começado antes dos 12 anos (comumente começam antes, mas casos leves podem demorar décadas para serem percebidos).

PENSANDO AINDA NA IDEIA DE ESPECTRO, ALGUMAS PESSOAS PODEM TER UM “QUASE” TDAH?


Do ponto de vista formal não é adequada essa nomenclatura, mas, na prática, identificamos muito esse fenômeno. Principalmente em familiares de pessoas que têm o diagnóstico firmado. São aqueles indivíduos que têm alguns sintomas de TDAH não suficientes para definir formalmente a presença da patologia, mas que conseguem viver razoavelmente bem com isso.

COMO SUSPEITAR DE TDAH?


Um elemento que merece atenção aqui é que os sintomas de TDAH devem estar presentes obrigatoriamente antes dos 12 anos de idade. Não existe TDAH que começa na idade adulta, mas não é raro se prestar atenção aos sintomas só nessa fase. Considerando que, na infância, já estavam presentes as características do transtorno, importante interpretar as alterações no contexto de cada idade.


Um aspecto central para haver suspeita e se fazer o diagnóstico de TDAH são os sintomas. Há 18 tipos distribuídos em 2 grupos: desatenção e hiperatividade/impulsividade. Uma pessoa pode ter um TDAH do tipo desatento, hiperativo/impulsivo ou uma combinação dos dois.


Segue a lista dos 9 sintomas do tipo desatento (o mais comum em adultos). Em outro post, falaremos melhor do tipo hiperativo/impulsivo.



Dificuldade em prestar atenção nos detalhes, cometendo erro por descuidos. Acontece principalmente quando está trabalhando em tarefas chatas ou difíceis.




Dificuldade em manter a concentração nas tarefas, atividades, principalmente quando são chatas ou difíceis. Pode ser uma conversa com alguém, assistir uma aula, ler um livro.



Desconexão durante uma conversa com uma pessoa ou em grupo. “Viaja” durante a conversa, muitas vezes perguntando algo que acabou de ser falado.



Não consegue seguir instruções até o fim. Dificuldade em completar tarefas, começa várias coisas e não termina nenhuma.



Dificuldade para organizar tarefas e atividades. Tem pouca noção ou gerencia mal o tempo, planejamento ineficiente, visto pelos outros como desleixado ou bagunceiro.



Evita tarefas com esforço mental prolongado. Tende a fugir de coisas que exigem muita concentração, adia frequentemente tarefas que não sejam fáceis ou divertidas, não gosta de ler por precisar fazer esforço mental.



Perde frequentemente coisas necessárias para as tarefas/atividades: chaves, carteira, celular, documentos.



Se distrai facilmente com estímulos diversos: ruídos, pessoas conversando. Dificuldade para filtrar/selecionar informação.



Esquece facilmente atividades e compromissos do dia a dia. Muitas vezes, precisa ser lembrado pelos outros ou adotar metodologias rígidas para não esquecer das coisas.

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